
Um pôr-do-sol para meu pai
por Simone Patrícia
Hoje é 08 de agosto; uma sexta-feira. Estou acordada ainda, sem sono, é quinta-feira a noite, estou esperando o sono chegar para poder descansar para o dia de amanha. A mesma rotina de pegar o carro cheio logo cedo e viajar para a Laje, mesmo cansada ainda encontro uma forcinha para rabiscar estas linhas pra meu pai. Escrevo rápido para ver se dá tempo de dormir mais um pouco. De que eu possa, enfim, dizer tudo o que não pude por todos esses anos. Mas ele não pode me ouvir. E falo pra mim. Agora ele está num bar lá no céu, fazendo farra com os amigos dele...
Aff, a cai cai net não me deixou postar hoje, farei isso amanha...
Eu nasci no dia 28 de novembro. De minha infância não me lembro de ter passado por momentos ruins, só os comuns de criança. Tive uma vida tranqüila, sem luxos mais nunca me faltou nada. Não posso dizer que tive um pai ausente, por que me dava muito bem com o meu pai e entendia o jeitão dele, chamava-o de “menino” coisa que trouxe pra minha vida no trabalho é como chamo os meus velhinhos do INSS...rsrs
Sempre fui mais apegada a minha mãe, mas sempre estava em contato com o meu menino. Minha mãe me deu o amor; trouxe-me à luz. Meu pai fez a inscrição da identidade na minha alma, aquilo que torna cada um de nós singular.
Eu era pequena e levada. Diferente das minhas irmãs eu sempre conversava com ele; brincávamos muito e ele sempre sorria orgulhoso da filha mais bonita dele.
Lembro-me que quando pequena tinha mania de vestir as roupas dele e ficar enchendo o saco no quarto dele lá na Rua Antonio Arecipo. Amava aquele menino e guardei ou herdei dele a alegria de viver, a lábia extrema que consegue convencer até o mais crédulo dos mortais de que as minhas palavras são as mais certas, de que meus pensamentos são os mais sensatos... Engraçado ser assim, eu, a que teve menos tempo com ele; a que chegou quando eles (meus pais) já estavam quase velhos e mesmo assim sou detentora de um vinculo imenso com os mesmos.
Agora, de tantas coisas me lembro. E faço esse exercício com a memória, na tentativa de criar um mundo onde nós estejamos juntos outra vez. Lembro-me de quando voltava de Maragogi e ficava contando a ele como as pessoas me tratavam por lá; lembro-me ainda dele falando para os vizinhos: - chamam-na de “Doutora”, todo orgulhoso da filha.... rsrsrs
Ele me ensinou a ter apego à família por mais errada que ela pudesse ser, ensinou a não fazer distinção entre as pessoas e mesmo não aceitando o que elas faziam respeitá-las sempre, a ter orgulho de mim, do que conquistei e do que perdi. E como eu fui orgulhosa. E como me orgulho disso. Ao invés dos velórios, meu pai preferia uma boa cerveja, mas não perdia um. Ao invés de chorar, rir muito com os amigos. Ao invés de ficar numa cadeira de balanço envelhecendo, dançar para se alegrar. Teve tudo o que queria.
Nunca um homem lutou tanto na vida, pelos que ele adorava. Nunca um homem terminou com tão pouco, sem deixar nada. Mas pensar assim seria só ressaltar uma ilusão. Se o critério para dizer o que é uma vida cheia e rica for a conquista de bens, então, meu pai viveu como um miserável. Agora, se a riqueza for sentir necessidade de pouco e a felicidade for saber gozar com o que temos, com o que não nos falta, meu pai foi alguém que teve, mesmo em meio a sua ignorância, a verdadeira sabedoria: aproveitou sua vida, sua alegria, sua família, sua simplicidade, seu universo.
E agora, quando lembro que se já se passaram quatro anos, eu me pergunto: o que determina que a vida de alguém não foi em vão, que tenha valido a pena? E foi uma simples foto que trouxe a resposta para o que faz da vida de um homem algo grandioso. A mesma foto que eu mesma escolhi para a missa de sétimo dia, para a pedra na lápide. Um pequeno retrato teve o poder de mudar o sentido que o seu destino insistiu em construir. Era a foto de meu pai com seu olhar que falava tanto. Diante de uma vida de tantas perdas e desencontros, estava, enfim, em paz, sem precisar de mais nada.
Hoje são 08 de agosto. É um dia bonito, sem nuvem no céu. O sol ainda está nascendo e não faz frio. A última vez que o vi, um dia antes, antes que terminasse o horário das visitas, tirei minha mão da dele e, saindo, meio de lado, disse eu te amo. Não olhei para os olhos dele. Não sei se ele viu ou ouviu. No dia em que meu pai morreu, no dia 08/08/2004, foi assim que o sol se pôs.
Hoje são 08 de agosto. É um dia bonito, sem nuvem no céu. O sol ainda está nascendo e não faz frio. A última vez que o vi, um dia antes, antes que terminasse o horário das visitas, tirei minha mão da dele e, saindo, meio de lado, disse eu te amo. Não olhei para os olhos dele. Não sei se ele viu ou ouviu. No dia em que meu pai morreu, no dia 08/08/2004, foi assim que o sol se pôs.


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